Treinamento aeróbio em jejum: Ponto de vista 2

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O emagrecimento é um dos objetivos mais frequentes em ambientes para prática de exercícios físicos, em especial, em academias. Tal objetivo não é exclusivo de pessoas com sobrepeso, mas também o objetivo de praticantes que desejam alcançar a composição que julgam ideal.

Pensando em conseguir o objetivo da redução da gordura corporal com eficiência, os praticantes buscam todas as estratégias possíveis, entre elas, surge atualmente a polêmica prática do exercício aeróbio em jejum, ou aerobiose. Anteriormente apresentamos um primeiro ponto de vista com relação ao tema, e na publicação atual buscamos relatar um segundo ponto de vista, visando a maior informação dos leitores e que possam identificar qual ponto de vista melhor lhe agrada tendo em vista a grande dúvida sobre o tema.

Autores há anos atrás mencionaram que a oxidação das gorduras atinge seu ponto máximo em torno dos 64% do Vo2max, intensidade considerada de leve a moderada, tornando-se insignificante a 89% do Vo2max, o que corresponde a aproximadamente 92% da frequência cardíaca máxima (Achten et al., 2002; Romijn et al., 1993). Pensando assim, podemos sugerir que quanto mais intenso for um exercício, menos gordura será mobilizada durante sua execução. Frente a essas informações foi sugerido que a prática de exercícios objetivando o emagrecimento, deveria ser realizada em baixa intensidade e longa duração. Mas seria isso realmente o ideal? Bastaria se exercitar numa frequência cardíaca que correspondesse a intensidade onde ocorre a taxa máxima de oxidação de gorduras, para emagrecer.

Mesmo que pareça fazer sentido tal colocação, algumas meta-análises citam que a priorização do metabolismo das gorduras durante o exercício (modelo aeróbio), não é a melhor estratégia para emagrecer (Ballor & Keesey, 1991; Ballor & Poehlman, 1994). Como exemplo, podemos utilizar a comparação clássica entre o atleta de Endurance vs Velocidade. Velocistas tem em sua composição corporal percentuais de gordura menores do que atletas de endurance (maratonistas, triatletas, fundistas), mesmo esses últimos se exercitando e competindo, quase que exclusivamente priorizando o metabolismo das gorduras (Fleck, 1983; Pipes, 1977).

Apesar de se falar em Aeróbio em Jejum, muitas vezes são ingeridos alguns suplementos antes da realização dessa atividade no intuito de prevenir a perda de massa muscular, o que descaracteriza a utilização deste termo. Para compreender a incoerência dessa prática, é preciso lembrar que a glicose é fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo. O cérebro, por exemplo, só funciona em caso de existência da mesma no organismo. Quando passamos muito tempo sem nos alimentar, a glicose sanguínea (glicemia) pode cair bastante, levando a hipoglicemia (McArdlle, 2008). Dores de cabeça, tontura, enjôo, náuseas, escurecimento da vista, desmaio e, em casos extremos, coma seguido de morte, são consequências da falta de glicose no sangue.

Com as reservas de glicogênio em baixa devido ao jejum, o organismo busca de diversas maneiras produzir glicose e evitar as complicações causadas pela sua baixa disponibilidade.

Como a perda de proteínas nem sempre é um resultado desejável, algumas pessoas sugerem a ingestão de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e/ou Glutamina cerca de 30 minutos antes de iniciar o AEJ. A idéia é derivada de um fornecimento exógeno de substratos para a via gliconeogênica, e evitar a utilização dos aminoácidos que compõem a massa muscular (proteólise). Porém, esta idéia de ingestão de aminoácidos numa situação de jejum e esforço, como as vivenciadas durante o AEJ, só surtirá o efeito desejado (poupar proteínas) se os aminoácidos forem convertidos em glicose. Dessa forma, os aminoácidos que tem custo elevado em comparação aos carboidratos serão convertidos em glicose pelo nosso organismo. Sendo que pra evitar a proteólise bastaria realizar uma refeição leve no café da manhã, de modo a fornecer quantidades satisfatórias de carboidratos, excelente poupador de proteínas (McArdlle, 2008).

Pesquisador descreve detalhe importante sobre a questão da utilização de cada nutriente como fonte de energia, onde os níveis sanguíneos de glicose em condições normais se encontram entre 80-90 mg/100 ml. Quando estamos em jejum, inicia-se a gliconeogênese, com mobilização do estoque de CHO no fígado. Em seguida, ocorre o catabolismo das proteínas que são utilizadas pelos tecidos ou convertidas em glicose. Após a utilização de proteína e CHO, finalmente prioriza-se a mobilização de gordura, com a formação de corpos cetônicos, que conseguem passar pela barreira, sangue e cérebro e serem utilizados como energia. Se o jejum permanecer por muito tempo, ocorre novamente o catabolismo protéico, desta vez de forma mais danosa (GENTIL, 2002).

Ao realizar uma atividade física em jejum, a quantidade de CHO armazenado no músculo e no fígado encontra-se em baixo nível. Contudo, haverá menor quantidade disponível de energia para realizar o exercício (FREITAS, 2000).

Marquezi; Costa (2008) dizem que alguns autores observam que a alteração da composição corporal obtida através do treinamento em jejum é devido à redução de massa magra, em sua maior parte, e que as diferenças de

peso descritas referem-se, principalmente, à perda de água.

Segundo Gentil (2002), em repouso, um organismo saudável pode adaptar-se ao jejum facilmente, mas, frente a uma demanda metabólica elevada, como nos exercícios, a ocorrência disso pode tornar-se mais difícil.

Para finalizar, citaremos diretamente a colocação de Eduardo Porto, do grupo de pesquisa GEASE.

“Na maioria das vezes os textos que defendem o AEJ, se apoiam na figura de um pesquisador sueco chamado Torbjorn Akerfeldt. Geralmente eles fazem uma citação direta do pesquisador, mas nunca colocam o ano da publicação entre parênteses após o nome dele. É que aparentemente, o Torbjorn Akerfeldt nunca publicou isto em revista científica. Ele publicou na “renomada” Muscle Midia na década de 1990, que está extinta.

Torbjorn Akerfeldt, realmente é sueco e publicou alguns artigos científicos. Ao digitar seu nome na pubmed, foram listados nove artigos, sendo o primeiro deles em 2003. Suas publicações em periódicos científicos, em nenhum momento tratam da oxidação de gorduras ou aeróbio em jejum. A linha de pesquisa dele é processo inflamatório e proteína-C reativa.

A utilização de apenas um artigo científico para justificar qualquer prática que seja pode ser classificado como pobreza de evidências. Imagina quando esse artigo é de uma revista comum (tipo Boa Forma), que não existe mais e ainda por cima orienta as pessoas a realização de uma atividade que não surte os efeitos desejados.

Outras pessoas utilizam como referencia pesquisas realizadas em mulçumanos durante o jejum do Ramadã. Porém vale lembrar que durante o Ramadã, mês sagrado para os mulçumanos, o ato de jejuar ocorre do nascer ao por do sol, caracterizando um jejum intermitente, com possível supercompensação de carboidratos. Sem contar que os próprios pesquisadores alertam para o fato da amostra já estar familiarizada com essa prática desde a infância, podendo ter desenvolvido uma adaptação específica, o que se torna uma séria limitação dos estudos com essa população (Trabelsi et al. 2012). Por mais que as pessoas não levem em consideração o que os artigos ora apresentados concluem, podemos hipoteticamente supor que a Abordagem Metabólica é valida e contabilizar a quantidade de gorduras oxidadas durante o AEJ. Num cenário bastante otimista a perda de gorduras será ínfima. Algo em torno de 12 gramas para uma pessoa com 70kg se exercitando a 60% da FC (Calles-Escandon et al, 1991).

Portanto, podemos concluir que a prática do AEJ não tem apoio em artigos científicos e está presa ao paradigma de que para emagrecer é preciso oxidar gorduras durante o exercício (abordagem metabólica). Na realidade, estratégias para emagrecimento, devem envolver treinamento de força com exercícios resistidos associados a protocolos de treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que estimulam a elevação da Taxa Metabólica de Repouso e mantém a oxidação de gorduras elevada, mesmo horas após sua execução (Hunter et al., 2000)”

Referências

Gentil, P. Atividade física em jejum. Grupo de estudos avançados em saúde e exercício, Brasília, 1 jan. 2002. Disponível em: www.gease.pro.br. MARQUEZI, M. L; COSTA, A. S: Implicações do jejum e restrição de carboidratos sobre a oxidação de substratos. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte. v. 7, n.1, p. 119-129, 2008.

Freitas, A. M. Jejum e atividade física, 1 mar. 2000. Disponível em: www.findyourself.com.br.

Ballor DL, Keesey RE (1991). A meta-analysis of the factors affecting exercise-induced changes in body mass, fat mass and fat-free mass in males and females. Int J Obes. 15(11):717-26 . Ballor DL, Poehlman ET (1994). Exercise-training enhances fat-free mass preservation during diet-induced weight loss: a meta-analytical finding. Int J Obes Relat Metab Disord. 18(1):35-40.

Fleck SJ (1983). Body composition of elite American athletes. Am J Sports Med. 11(6):398-403.

Pipes TV (1977). Body composition characteristics of male and female track and field athletes. Res Q. 48(1):244-7.

McArdle, William D (2008). Fisiologia do Exercício: energia, nutrição e desempenho humano. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan.

Hunter G. R., Wetzstein C. J., Fields D. A., Brown A, Bamman M. M(2000). Resistance training increases total energy expenditure and free-living physical activity in older adults. J Appl Physiol 89(3):977-84

Calles-Escandon J, Goran MI, O’Connell M, Nair KS, Danforth E JR.(1996) Exercise increases fat oxidation at rest unrelated to changes in energy balance or lipolysis. Am J Physiol Jun;270(6 Pt 1):E1009-14.

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