Elevation Training Mask: Verdade ou mentira? Conheça um ponto de vista!

Referência da imagem: gatame.fr/4557-thickbox_default/phantom-training-mask

Após apresentarmos o que é a Training Mask (clique aqui para ler) em publicação anterior, na publicação atual, o Prof. Tiago Coimbra Machado nos enviou sua opinião sobre o assunto relacionado ao conteúdo científico que encontrou em sua pesquisa, confira:

Créditos: Prof. Tiago Coimbra Machado

Diversas pesquisas sobre o treinamento em altitude demonstraram que pode haver melhoras no condicionamento físico de atletas, mais especificamente na aptidão aeróbia. Baseado nesse conceito, a última moda nas academias e entre alguns atletas [patrocinados pelo fabricante, em sua maioria] é a “Elevation Training Mask” (ETM), um produto com grande potencial atrativo, mas que parece não apresentar todos os benefícios de treinamento propagados pela sua fabricante.

O treinamento com máscaras já era utilizado por algumas modalidades há certo tempo (utilizando snorkel ou máscaras de gás) e, atualmente, conquistou espaço entre praticantes de musculação e de treinamentos aeróbios, com a premissa de maximizar a performance dos usuários. O principal conceito por trás da ETM, resumidamente, seria: “simular as condições respiratórias em altitudes elevadas através da restrição da entrada de oxigênio, com propósito de aumentar a capacidade cardiovascular, pelo aumento do número de células vermelhas (maior quantidade de Eritropoetina ou EPO, hormônio de glicoproteína que controla a eritropoiese, ou a produção de células vermelhas do sangue) e da própria Capacidade Pulmonar Total (CPT), Volume de Reserva Expiratório e Inspiratório (VRE e VRI).”

Mas vamos ao que a ciência nos apresentado de informações acerca deste produto:

Sellers et al. (2016) concluíram um período de treinamento de seis semanas com dezessete militares, cadetes da reserva (ROTC) da Universidade Midwest, aleatoriamente designados para um grupo de controle e um grupo experimental com máscaras ajustadas para simular uma altitude de 2.750 m. Ao final do experimento, não houve efeito significativo entre os grupos no índice de fadiga, capacidade anaeróbia, potência de pico (PPO), VO2máx ou tempo até a exaustão. Dessa forma, os pesquisadores, sugerem que sua utilização durante o treino físico militar não provocou adaptações aeróbias ou anaeróbias superiores em cadetes e recomendam que indivíduos, equipes esportivas ou militares buscando utilizar IHT (intermittent hypoxic training), utilizem tecnologias como salas de hipóxia e protocolos/métodos já comprovados de treino em altitude simulada.

Mais um estudo (WARREN et al., 2017) com 14 cadetes da reserva americana (ROTC), concluiu que, após 3 sessões seguidas de treinamento, durante 7 semanas, além do aumento no VO2máx, pode haver um aumento na resistência muscular do diafragma, o que poderia, eventualmente, conduzir a uma respiração mais eficiente. Assim, qualquer pessoa poderia ser beneficiada, independentemente da tarefa, bem com as alterações podem ser melhoradas com o aumento na frequência da exposição ao uso da máscara.

Estudo clinico e relatório técnico de Dregger et al. (2014) do Northern Alberta Institute of Technology [patrocinado e publicado apenas no site da empresa fabricante da mascara] realizado em um grupo misto de 8 homens e 6 mulheres que executaram 5 sprints de 2min em alta intensidade (90-100% VO2máx) com 3min de recuperação ativa (30% VO2máx) em bicicleta ergométrica, 2x/sem durante 5 semanas com a máscara (versão 1.0 e configuração de altitude não foi mencionado), verificou aumentos significativos em Ventilação Expirado (VE) e do Volume Corrente (VC) para homens e mulheres. Os investigadores sugerem que a máscara fortaleceu os músculos respiratórios dos sujeitos, que se estenderam a melhorias prováveis em VO2máx. Aumentos na produção de energia também foram observados, no entanto, apenas significativamente nos indivíduos do sexo masculino, atribuídos a melhoria da função pulmonar e cardíaca.

John Porcari e sua equipe (2016) do Departamento de Exercício Ciências do Desporto na Universidade de Wisconsin – La Crosse, testaram a ETM para o aumento da resistência aeróbia, VO2máx e melhorara da função pulmonar. Vinte e quatro universitários, moderadamente treinados (sem treinamento de ciclismo nos seis meses anteriores a intervenção), foram avaliados em VO2máx, Limiar Ventilatório 1 (VT1), Limiar Ventilatório 2 (VT2), frequência cardíaca máxima (FC), potência máxima e função pulmonar e divididos em “grupo de máscara” e “grupo de controle”, e após algumas sessões preliminares para familiarização com a máscara, completaram um programa de treino idêntico em ciclo ergômetro de alta intensidade 2x/sem durante 6 semanas com sessão de 5min de aquecimento, 10 rep de 30s x 90s intervalado de alta intensidade e 5min de volta a calma com as seguintes configurações da mascara: semana 1 simulando altitude de 3.000 pés (914m); semana 2 simulando 6.000 pés (1.828m); semanas 3 e 4, simulando 9.000 pés (2.743m); e nas semanas 5 e 6, simulando 12.000 pés (3.658 m). Após reavaliarem os participantes, o estudo conclui que: o uso de ETM 2.0 para aumentar a resistência aeróbia e VO2máx e melhorar a função pulmonar como alega o fabricante não foram confirmadas. Enquanto VO2máx melhorou no grupo de máscara ao longo do curso do estudo, uma melhoria semelhante foi observado no grupo de controle, sendo que a razão exata para estes aumentos não foram claras, mas poderiam estar relacionadas com a retenção de dióxido de carbono no interior da máscara durante o exercício. Além disso, não houve alteração na função pulmonar ao longo das 12 semanas. O nome do dispositivo e as configurações que ele proporciona, induz a acreditar que o dispositivo simularia diferentes níveis de treinamento em altitude, no entanto, as diminuições na saturação de oxigênio no sangue eram pequenas (2%), o que está muito abaixo da dessaturação experimentada quando realmente um indivíduo esta em altitudes mais elevadas. Independentemente do mecanismo, não há dúvida, porém, que a máscara torna a respiração mais difícil, o aumento do esforço fortalece o diafragma, intercostais inspiratórios, escalenos, e esternocleidomastóide (em menor grau), tornando-a mais um dispositivo de treinamento muscular inspiratório que pode trazer implicações significativas no desempenho.

Granados et al. (2014) conduziram um estudo em que sujeitaram 5 indivíduos com mascara, a realizar 20min de esteira a 60% do VO2máx a 3 diferentes elevações 3,000 ft., 9,000 ft., e 15,000 ft. do qual concluíram que existia redução significativa na saturação de oxigênio nas duas elevações mais altas, demonstrando de fato uma resposta hipóxica ao exercício realizado. Todas as variáveis medidas foram alteradas, e com exceção da frequência cardíaca, não houve nenhuma diferença quando o dispositivo de treinamento foi configurado para altitude “Alta” ou “Muito Alta”. Conclusão: Este dispositivo de treinamento muscular combinado de inspiração/expiração induz a insuficiência de oxigênio no sangue (hipoxemia), mas utiliza um mecanismo de sinalização que não foi previamente descrito:  ↓ VE; →↑ FECO2 (Fração Expirada de Dióxido de Carbono); →↓ FEO2 (Fração Expirada de Oxigênio); →↓ SPO2 (Saturação de Oxigênio); →↑ PSE (Percepção Subjetiva de Esforço); →↑BAI (Escala de Ansiedade de Beck), indicando que a hipoxemia é causada pela respiração de CO2 (gás carbônico) expirado que se acumula em uma grande área de espaço livre na máscara (100ml) e não por adaptações da estimulação de eritropoiese e angiogênese que aumentam a capacidade de transporte de oxigênio

Pesquisa recentemente publicada (GRANADOS et al., 2016), verificou que a ETM causa hipoxemia e RMT (Respiratory Muscle Training) quando usada durante exercícios de resistência aeróbia com uma carga de trabalho equivalente a 60% VO2pico, mas a magnitude dessa hipóxia era muito menor que encontrada na altitude real, praticamente não encontrando diferenças entre as duas configurações de altitude propostas na máscara. As elevações na PSE e na ansiedade foram modestas, causadas pela hiperventilação inadequada que levou a hipoxemia arterial e desconforto psicológico, sugerindo que a sua utilização pode ser bem tolerada por atletas durante exercícios submáximos. Embora seja uma proposta de utilização, é importante distinguir a seleção de cenários em que tal ação pode ser útil, sendo evidente que não deve ser empregada em tempo integral, pois as reduções na tolerância para manter o exercício e a sua capacidade máxima, minimizariam a qualidade do treinamento e poderia afetar negativamente o desempenho, no entanto, só porque algo pode ser usado não significa que deva ser usado. Ainda pode contribuir para um aumento nas adaptações do RMT pela intervenção com especificidade esportiva e/ou substituir a necessidade de treino isolado para este fim. A maioria dos atletas de resistência aeróbia, naturalmente, utilizam um modelo de programa de treinamento polarizado, com aproximadamente 80% do volume em baixa intensidade (<65% no pico de potência) e 20% do volume em alta intensidade, proposta já reconhecida por provocar adaptações superiores no consumo máximo de oxigênio, economia de corrida e desempenho. Talvez incorporar a máscara em algumas sessões de baixa intensidade pode promover benefícios.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DO AUTOR

A diminuição da disponibilidade de oxigênio e aumento da atividade física podem esgotar substancialmente os níveis de oxigênio no sangue, que podem ocasionar:

– Interferência nas capacidades cognitivas (raciocínio, compreensão e pensamentos) a partir de 80% dos níveis de oxigênio no sangue;

– Lesões em áreas do cérebro responsáveis pelo equilíbrio, pensamento racional e controle muscular, ocasionada por hipóxia extrema;

– Danos neurológicos permanentes semelhantes aos efeitos da DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), causada por exposição hipóxica repetida.

– Inconsciência a partir de 60% e morte a partir de 40% dos níveis de oxigênio no sangue.

Não há nenhuma evidência que sustente benefícios extraordinários proporcionados ao usuário da máscara, na verdade, a maioria das pesquisas desencoraja o treinamento em hipóxia normobárica. A principal razão ao comprar esse equipamento seria a simulação dos efeitos fisiológicos da adaptação em elevadas altitudes, contudo, isso não é totalmente replicado sem pressão atmosférica reduzida. O aumento na contagem de glóbulos vermelhos será mínimo e perdido durante hemólise intravascular e nenhuma das adaptações serão permanentes. O uso de máscaras tem alguns benefícios de desempenho, mas o custo/benefício parece não ser um investimento necessário, especialmente para principiantes ou atleta experientes, pois existem outras estratégias mais eficazes para aumento do VO2máx e função cardiorrespiratória para performance a longo prazo. São necessárias mais pesquisas para respaldar ou refutar seu uso, mas até o momento, parece ser apenas mais um equipamento para RMT que não simula os efeitos da altitude, apenas restringindo o fluxo de ar.

 

  1. DREGER, Randy W.; PARADIS, CSEP CEP Scott. Clinical Study and Technical Report by NAIT University. In: Training Mask Clinical Studyem 23 fev. 2014. Disponível em:<www.trainingmask.com/clinicals/clinical-study-and-technical-report-by-nait-university/ >. Acesso em: 12 de fev. 2017.
  2. GRANADOS, Jorge et al. “Elevation Training Mask” Induces Hypoxemia But Utilizes A Novel Feedback Signaling Mechanism. In:International Journal of Exercise Science: Conference Proceedings. 2014. p. 26.
  3. GRANADOS, Jorge et al. “Functional” Respiratory Muscle Training During Endurance Exercise Causes Modest Hypoxemia but Overall is Well Tolerated.The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 30, n. 3, p. 755-762, 2016.
  4. PORCARI, John P. et al. Effect of wearing the elevation training mask on aerobic capacity, lung function, and hematological variables.Journal of sports science & medicine, v. 15, n. 2, p. 379, 2016.
  5. PORCARI, JOHN P. et al. Ace-Sponsored Research: Can Elevation Training Masks improve performance? ACE, v. 1, 2016. Disponível em:<www.acefitness.org/prosourcearticle/5955/ace-sponsored-research-can-elevation-training/>. Acesso em: 12 de fev. 2017.
  6. SELLERS, John H. et al. Efficacy of a ventilatory training mask to improve anaerobic and aerobic capacity in reserve officers’ training corps cadets.The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 30, n. 4, p. 1155-1160, 2016.
  7. WARREN, Brian G.; SPANIOL, Frank; BONNETTE, Randy. The effects of an elevation training mask on VO2Max of male reserve officers training corps cadets.International Journal of Exercise Science, v. 10, n. 1, p. 4, 2017.

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